Rodrigo Calixto

Simbiose
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Simbiose

2017

Quando eu era criança, gostava de deitar no chão do quintal de casa e passar horas a olhar o céu e as nuvens. As nuvens se movimentavam com lentidão, mudavam de forma e me faziam ver animais, mares e navios, figuras humanas, seres extraordinários. Com o tempo e a repetição da experiência aprendi que, para além das nuvens, havia algo mais instigante – porque sem forma e sem fim – um vazio infinito. Entendi que a brincadeira de adivinhar formas nas nuvens, apesar de divertida, era um subterfúgio, um diversionismo que apenas me distraía, tirava minha atenção de um segundo plano, onde moravam questões que não sabia formular.

A obra de Rodrigo Calixto me remete, num primeiro momento, a essa brincadeira infantil. As imagens de bolsas de sangue usadas, mais ou menos vazias, com material residual a lhes dar cor, me fazem lembrar nuvens vermelhas no céu da minha infância. Rodrigo passou incontáveis horas, dia após dia, com os olhos fixados naquelas bolsas, acompanhando o esvaziamento de cada uma delas enquanto lutava pela vida. Não sei se, para se distrair, procurava decifrar formas nos borrões vermelhos que se movimentavam. Certamente pensou no significado do vazio por trás dos resíduos de sangue, e dessa reflexão surgiu a obra. Pois as manchas vermelhas pouco representam: o que nos intriga é o vazio.

Entre os borrões vermelhos e os vazios brancos coexistem presença e ausência, morte e vida, luta e paz. Não é uma coexistência de iguais, no entanto, pois existe uma hierarquia: vermelho e branco não estão no mesmo plano, assim como ocorre com nuvens e céu. Os vazios são o reflexo de um processo de transferência de vida, em que o sujeito se dilui a cada gota de sangue absorvida. O império do Eu naufraga no Outro que o invade. Em tempos egocêntricos, Calixto homenageia a simbiose, a relação com o Outro que o mantém vivo. Um Outro anônimo, mas que grita sua presença.

Os vazios na obra de Calixto me remetem à pergunta essencial que, quando criança, eu não conseguia formular ao mirar as nuvens no céu – e que agora, adulto, não consigo responder. Quem é o Outro que desse vazio me vê, e que se constitui em mim? Esse Outro que, para Calixto, é dádiva, mas também dívida. Dívida que só a arte resgata.

Jorge Nobrega

Colecionador 

    Ficha Técnica

  • Artista: Rodrigo Calixto
    Obra: "Simbiose"
    Ano: 2016
    Dimensões: 110cm x 81cm x 7cm
    Tiragem: 01 numerada + 01 P.A.

    Materiais

  • Hahnemuhle 300g e folha de ouro 22K

  • Técnicas